sexta-feira, 1 de abril de 2011

Seres apolíticos..será que existem?

    Acho pertinente postar aqui alguma coisa sobre o que eu penso a respeito do posicionamento, ou a falta de, das pessoas em geral em relação a política e lendo alguma coisa aqui, outra ali resolvi juntar tudo e tentar chegar a algum lugar..
   Constantemente somos bombardeados com notícias decepcionantes em relação aos nossos representantes políticos, lacunas em um sistema repleto de deficiências que apenas intensificam a descrença por parte do povo na possibilidade de mudança do quadro político brasileiro.
   Esta pouca fé no sistema fica muito clara num trecho do texto da Elisa Lucinda chamado Só de sacanagem:
"Quantas vezes minha esperança será posta a provas? Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está ai no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do seu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobrres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais."
Assim como também destacado em Representação política em 3-D por Luis Felipe Miguel:

“Há o reconhecimento, implícito ao menos, de que a redução da confiança popular nos parlamentos e nos partidos não é efeito da “alienação”, da falta de compromisso com a democracia ou de resquícios de valores autoritários. É, antes, a constatação sensata de que as instituições atualmente existentes privilegiam interesses especiais e concedem pouco espaço para a participação do cidadão comum, cuja influência na condução dos negócios públicos é quase nula. Em suma, de que as promessas da democracia representativa não são realizadas.”
Se o sistema democrático, idealizado na Grécia antiga, partia do princípio do “governo do povo”, dos interesses da maioria, então chegamos à constatação de que a democracia como tal acaba sendo utópica, e que no decorrer dos anos este sistema acaba se tornando um meio de realização dos interesses individuais. Partindo deste mesmo princípio Robert Dahl lançou Um prefácio à teoria democrática:

Reservando o termo “democracia” para um ideal que raras vezes é concretizado no mundo real (e nunca em agrupamentos tão numerosos e complexos quanto Estados-nações), ele cunha a palavra “poliarquia” para designar a aproximação possível a esse Ideal. Embora Dahl desenvolva um conjunto de critérios de democracia, cuja efetivação parcial definiria uma organização como poliárquica, o ponto crucial – que transparece já no significado etimológico da palavra – é a presença de uma multiplicidade de pólos de poder, sem que nenhum seja capaz de impor a sua dominação a toda sociedade. Em suma, senão podemos contar com o governo do povo ou mesmo com o governo da maioria, podemos ao menos ter um sistema político que distribua a capacidade de influência entre muitas minorias. Assim, as eleições ocupam uma posição central num ordenamento poliárquico não porque introduzam um “governo de maiorias em qualquer maneira significativa, mas [porque] aumentam imensamente o tamanho, número e variedade das minorias, cujas preferências têm que ser levadas em conta pelos líderes quando fazem opções de política” (Dahl, 1989 a [1956], p. 131).”
Outra vertente que também não pode ser esquecida é o papel da mídia, de extrema importância, pois é o meio pelo qual se difundi a notícia e conseqüentemente molda a opinião do povo, sendo assim exposta também por Luis Felipe Permitir a disseminação das visões de mundo associadas às diferentes posições no espaço social, que são a matéria-prima na construção de identidades coletivas, que por sua vez fundam as opções políticas. É o que vou chamar de pluralismo social”.
Mas, assim como o fato de os partidos políticos agirem em prol de seus próprios interesses a atuação da mídia também não é diferente onde infelizmente “os interesses dos proprietários das empresas de comunicação, a influência dos grandes anunciantes, a posição social comum dos profissionais do setor e a pressão uniformizadora da disputa pelo cliente” fazem com que a mídia ao invés de informar o povo acaba deformando-o mostrando apenas uma posição presente na sociedade, limitando a capacidade de entendimento da real situação do país.
Desconsiderando, por ora, as falhas nos meios de comunicação e atentando as “identidades coletivas”, citado acima, o ideal para a integração política acaba entrando em questão a idéia exposta em Teoria democrática atual: Esboço e mapeamento por Luis Felipe Miguel, ao argumentar sobre o multiculturalismo condição presente na história da formação do povo brasileiro “Como garantir a unidade política e a igualdade de direitos para cidadãos cujas origens, crenças e valores fundamentais são tão diversos?”.
Este questionamento em relação às identidades coletivas também é exposto em Dilemas do nacionalismo por Paulo César Nascimento, que na tentativa de explicar a origem e a necessidade do nacionalismo Eric Hobsbawm enfatiza um ponto crucial da tese modernista “Nações são construções, invenções humanas que não existiriam desde tempos imemoriais, como reivindicam os ideólogos do nacionalismo, mas que surgiram em um determinado contexto geográfico, socioeconômico e político”.
Essa concepção de nacionalismo se torna bastante útil levando em consideração que essa relação entre indivíduo e nação revela a dimensão política do nacionalismo o que possivelmente tem seu peso na hora das decisões dos interesses políticos dos vários grupos que participam ativamente em prol do favorecimento de suas preferências. Liah Greenfeld assim descreve o nacionalismo cívico “Esse nacionalismo de caráter cívico é baseado na concepção política de cidadania, independente de raça, religião, língua, etnia e até local de origem. Por isso, ela insiste que o nacionalismo cívico é inclusivo e democrático” o que, pelo fato de existir uma miscigenação que levou a formação do povo brasileiro, esse nacionalismo cívico acaba se tornando mais coerente em relação ao nacionalismo étnico o que, se for levado ao extremo, pode levar ao xenofobismo.
É fato que a descrença do povo brasileiro em relação a política é devido ao rumo que o sistema democrático tomou ao longo dos anos. Do favorecimento de parte da população enquanto a massa continuava desamparada e excluída nas tomadas de decisões de interesse público, continuava assistindo tudo “bestializada”, fruto de uma falta de investimento a longo prazo, assim como afirma o jurista Fábio Konder Comparato “Como tudo está relacionado ao Executivo, é óbvio que o investimento a longo prazo não será aplicado, porque o horizonte, a visão oficial do executivo, é de quatro anos. Todo o desenvolvimento é fundado no crescimento econômico e na justa distribuição de renda, onde a solução para isso seria criar um órgão de planejamento que seja autônomo em relação ao executivo, que não tenha nada a ver com os interesses partidários e o processo eleitoral, e que tenha participação efetiva dos agentes econômicos da sociedade civil”.
 Pois é somente assim que a massa terá condições materiais de se igualar e compreender o processo político assim como descrito em Estado e teoria política por Martin Carnoy, a visão de Rousseau era que “se quiserdes, portanto, dar ao Estado... Aproximai os extremos tanto quanto possível: não tolereis nem pessoas opulentas nem mendigos. Essas duas condições, naturalmente inseparáveis, são igualmente fatais ao bem-comum”.
Somente colocando o jogo de interesses em segundo plano é que a democracia como tal deixaria de ser utópica e se tornaria realidade em um futuro próximo. Assim como também descrito no texto de Elisa Lucinda Só de sacanagem:
“Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.
Dirão: “É inútil, todo mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal.”
Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.
Eu repito, ouviram? IMORTAL!
Sei que não dá pra mudar o começo, mas se a gente quiser, vai dar pra mudar o final!”
   Pronto, falei =p

3 comentários:

  1. Olá, Fernanda! Eu perdi o sono, mas você perdeu muito o sono. Tentei ler sua postagem, mas ela é enorme, não sei se entendi tudo. De qualquer modo, pude sentir sua indignação e, de certa forma, participo dela.

    Convido para que leia meu Portinari e comente no http://jefhcardoso.blogspot.com/

    “Que a escrita me sirva como arma contra o silêncio em vida, pois terei a morte inteira para silenciar um dia” (Jefhcardoso)

    ResponderExcluir
  2. Fernanda, fico muito feliz com sua presença em meu blog. Você é tão inteligente, eloqüente! Espero que goste de meus textos. Um grande abraço e obrigado por sua atenção!

    @Jefhcardoso74

    ResponderExcluir
  3. nossa ficou muito bom agora
    parabens!!!

    ResponderExcluir